“Análise do homem cordial em ‘Raízes do Brasil'” por Marcela de Oliveira

Por olhares de “Raízes do Brasil”, HOLANDA, Chico Buarque.

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Inicialmente, o antropólogo Sérgio Buarque de Holanda dissemina sua visão, um tanto quanto conservadora, sobre a formação do Estado e a construção da família. O autor aborda como exemplo de oposição entre as duas idéias, a tragédia grega de Antígona e Creonte, fornecendo ao leitor as características sobre os interesses do Estado e a disputa familiar. 

Os interesses do Estado vão além da visão de um só homem, haja vista o patrimonialismo herdado pelos portugueses que emergiu, não só no Brasil, mas que aqui permaneceu fortemente até hoje. 

Herança não só patrimonial nos deixaram os portugueses, herdamos também a formação urbana criada pela sociedade lusa, que através da família patriarcal propiciou a diversidade de comunicações e migrações dos meios rurais para o urbano. Conseqüência, de fato, foram as diferenças entre pessoas, entre povos, culturas e afins, causando o impacto do desequilíbrio social, que estão vivos até hoje. É inegável que a soma das diferenças é o que dá a originalidade para qualquer cultura, porém o processo de aculturação vale, em sua maioria, a pena? 

O antropólogo cita alguns exemplos da evolução patrimonial inserida, nos dias de hoje, na sociedade. Um deles é a separação de classes que, veio surgindo através das relações cada vez menos atrativas entre empregador e o empregado. 

Outro exemplo bastante forte é o fato de, a família ser base preparatória para o ser humano viver conforme as leis do Estado. A família já  tem o hábito de preparar o homem para “servir” às normas estatais e substituir-se aos laços próprios familiares. Não é preciso ir muito longe para concretizar tal exemplo, o costume que adquirimos de obedecer nossos pais, ensinados desde a infância, já é uma espécie de propedêutica à vida social. 

Não se vê  mais a relação humana sem distinções entre si, o homem seguido por fatos históricos, absorveu o individualismo sem perceber. São esses os reflexos em que vive a sociedade. Reflexos patriarcais e coloniais. 

Desde então, todo o sistema evolui (ou não), de acordo com os reflexos sociais. E do mesmo modo que existem as distinções “evolutivas” entre o mais pobre e o mais rico, entre o branco e o preto, entre um e o outro, há uma forte oposição também entre, o privado e o público. 

No Brasil, os casos excepcionais são aqueles que exercem preocupações com o sistema público, os anseios particulares sempre falam mais alto, devido principalmente, às questões capitalistas. Sérgio Buarque acredita que a família é um forte “círculo fechado e pouco acessível a uma ordenação impessoal”, e que por essa razão se exprimiu com mais força na sociedade. 

Independente dos desvinculos familiares, e ou individualismos pessoais, o antropólogo disserta sobre as atitudes cordiais do brasileiro e nossa oferta para o mundo. Como Brasil diversificado que somos, o universo gringo nos vê com olhos diferenciados, olhos que vêem um brasileiro receptivo, sorridente e hospitaleiro, talvez entre tantos traços misturados entre si, seja essa justamente a característica mais marcante que temos, o diferencial. 

O perigoso é confundir essa característica, fundamental para o entendimento da alma do brasileiro, com “boas maneiras”, civilidade. Esses traços pertencem aos filhos desse Brasil, e os são porque simplesmente são. Não há maneiras de tirar isso da alma emocional dos latinos, e principalmente as dos brasileiros. 

É ininterrupto o fato de que, há uma forte distinção entre o povo japonês e a sociedade híbrida brasileira, como exemplifica o autor. Há diferenças entre muitas outras sociedades também, porém é tão evidente a distinção japonesa e brasileira que, a explicação para a “apatia” dos japoneses, chega-se a confundir com seus aspectos religiosos. 

Há contraposição em decorrência dos brasileiros, claro. O povo que resolve as situações sempre com seu “jeitinho”, sabe como ser simpático e lidar com as razões da vida, é simplesmente jogar tudo para o lado emocional, que então “tá resolvido”.  

O “homem cordial”, como diz Buarque, influencia-se sim nas questões religiosas japonesas. Assim como às africanas, hindus, muçulmanas e etc., entretanto não se apega a elas, quanto seus nativos. 

Aqui no Brasil, em vez de gloriar um santo durante dois dias inteiros, o povo “cordial” sai em massa, no calor humano, na desordem, atrás de outra imagem e, nada mais que uma ou duas horas para resolver toda aquela questão, a qual chamam de religião. Mas veja, são uma ou duas horas de muita fé também, ou pelo menos é esse o nome que aqui dão para tal crença. O Brasil é visto com olhos estrangeiros bem críticos, em respeito a sua diversidade de religiões e desapego às obrigações religiosas de cristãos. E o que chamamos de crença, torna-se apelativa devido à diversidade também de “apelos” a seres superiores, tende-se acreditar cada hora em um santo diferente, solicitar graças pra um e pra outro, ou em sua maioria, em todos de uma só vez. 

E é desse modo com que aprendemos a viver, “em todos de uma só vez”. Há tristeza, quando o brasileiro encontra-se só, com ele mesmo, “a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo” (BUARQUE, p. 147). 

E, talvez, seja dessa hipótese que o termo “cordial” tenha vindo, a final quando não se quer ficar sozinho, o método é rir aos quatro ventos e, simpatizar-se com tudo.

O brasileiro tem essa alma mais íntima das pessoas, e o autor de “Raízes do Brasil”, explica tal intimidade, através das terminações “inho” bastante usada na linguagem brasileira, que diz servirem para maior aproximação, familiarização com as pessoas ou objetos, e ao mesmo tempo para lhes dar relevo. Isso se explica também, pelo fato do sentimentalismo exacerbado até nas palavras, o que torna motivo de crítica portuguesa aos “diminutivos”.  

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        (…) nós nos comportamos de modo perfeitamente contrário à atitude já assinalada japonesa, onde ritualismo invade o terreno da conduta social para dar-lhe mais rigor. No Brasil é precisamente o rigorismo do rito que se afrouxa e se humaniza. (BUARQUE, p. 149) 

Na Europa, é costume sentir a religião de uma forma mais sofredora, e tornar uma imagem superior ao que ela é, sem deixar-se misturar com o povo, e se tornar um ser inatingível.  O autor exaltou pontualmente o que a religião, diferencialmente da européia, representa aqui no Brasil. Enquanto uma imagem não pode ser tocada em Portugal, por exemplo, em terras brasileiras ela é levada nas mãos do povo em procissão, quando não, acompanhados do samba. Até os santos se tornam íntimos do brasileiro, que na visão de Buarque chegam ser “(…) desrespeitosas e que devem parecer estranho às almas verdadeiramente religiosas”.  

E como cá, lá também são formas que refletem na sociedade. Acumulam riquezas, patrimônios, criam Welfare State, e principalmente tristezas, enquanto nós acumulamos felicidade, em ver o Cristo descendo do altar para sambar com o povo. 

Creio que este ímpeto do ‘estar junto’, caracterizado pelos brasileiros, seja resultado de suas atitudes, já impostas uma vez, pela própria sociedade, talvez colonial. São raras as pessoas que vão às missas, e prestam atenção nas palavras do padre. As pessoas dirigem-se ao catolicismo, por puro hábito, tradição. Buarque afirma que o clima não favorece a severidade das seitas nórdicas e que o austero metodismo ou o puritanismo jamais florescerão nos trópicos, e que desta forma o comportamento social do brasileiro tende a ser mais estridente e menos rigoroso que as dos asiáticos, por exemplo. 

Seja através da sua falta de rigorosidade religiosa, sua falta de concentração, sua felicidade exacerbada ou seu sentimentalismo, o brasileiro será sempre aquele que independente da dificuldade, conseguirá de alguma forma virar o jogo ou sair ao menos empatado. Não tem como fugir, “jeitinho brasileiro” virou adjetivo. E o responsável por esse “jeitinho”, tenta mais que tudo buscar sua marca, sua característica ao longo da história. Entretanto, só o que não sabe, é que essa origem foi descoberta há tempos, pois ela está em mim, em você, nele, nela, no outro… 

Referência:

HOLANDA, Sérgio Buarque de ; “Raízes do Brasil” In: ‘O homem cordial’ , 1936

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Arquivado em BRASILEIRA, Cultura

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